O Triângulo Cor-de-Rosa
OU A DEFESA DE UMA LINHAGEM QUEER.
O Triângulo Cor-de-Rosa transcende o seu papel como mero símbolo de resistência para se afirmar como um dos mais potentes atos de criação de identidade histórica do século XX. A sua força não reside na memória de uma visibilidade conquistada, mas na sua extraordinária capacidade de representar um legado comum para uma comunidade queer global, superando barreiras de identidade, etnia, classe ou geografia. Funciona como um marco de ancestralidade, ligando as nossas experiências contemporâneas a um passado partilhado de trauma e resiliência.
Este fenómeno pode ser entendido como uma forma de
Em que ano foi totalmente revogado o parágrafo nº175?

A sua origem está mergulhada na infâmia do regime nazi. Com base no notório Parágrafo 175, que criminalizava a homossexualidade masculina, estima-se que cerca de 100.000 homens foram detidos, considerados degenerados e traidores da raça ariana.
Destes, entre sete a dez mil foram deportados para campos de concentração, onde o triângulo cor-de-rosa invertido, cosido no uniforme, visivelmente maior do que os triângulos coloridos dos outros presos, se tornou o estigma que os marcava para um tratamento de um sadismo próprio.
Eram frequentemente isolados em barracões separados para não contaminar os restantes prisioneiros, obrigados a dormir sob luz constante e com as mãos sobre as cobertas, não fossem praticar atos imorais. Sujeitos a torturas indescritíveis e a experiências médicas cruéis que visavam curar a sua sexualidade, a taxa de mortalidade entre estes prisioneiros atingia os 60%, um dos mais elevados, ultrapassado apenas por judeus e ciganos, ilustrando o tratamento que recebiam.
100.000
Homens presos sob o Parágrafo 175 entre 1933 e 1945.
~60%
Taxa de mortalidade nos campos
+847%
Aumento de Condenações Anuais
"A minha camarata, com 180 ou mais prisioneiros, continha a mais variada coleção de pessoas. Trabalhadores não qualificados e ajudantes de loja, comerciantes qualificados e artesãos independentes, músicos e artistas, professores e clérigos, até mesmo proprietários de terras aristocráticos."
— Heinz Heger (Josef Kohout), 1994

Prisioneiros no campo de concentração de Sachsenhausen, 1938.

Prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald.
O fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 não trouxe, contudo, a libertação. Pelo contrário, para muitos destes homens, inaugurou a cruel ironia de uma segunda perseguição. Como a versão nazi do Parágrafo 175 permaneceu em vigor na Alemanha Ocidental até 1969, muitos sobreviventes foram transferidos diretamente dos campos para as prisões da nova república. O seu estatuto de vítimas do Holocausto foi-lhes negado durante décadas, sustentado pela lógica perversa de que, sendo criminosos antes e depois do regime, a sua perseguição pelos nazis não constituía uma injustiça particular.

"A homossexualidade permaneceu ilegal e um tabu tão estrito após o Holocausto que ninguém, nem historiadores nem os próprios sobreviventes gays, falou sobre o destino das comunidades queer."
— W. Jake Newsome, 2022
Cronologia de uma Ressignificação
1937: Origem como Opressão
O regime nazi força os homens homossexuais a usar o triângulo rosa nos campos de concentração, marcando-os para um tratamento brutal.
1945: A Segunda Perseguição
Após a guerra, a homossexualidade continua a ser crime na Alemanha Ocidental. Muitos sobreviventes são transferidos para prisões, e o seu sofrimento é negado.
1972: Reapropriação Ativista
Movimentos de libertação gay na Alemanha começam a usar o triângulo como símbolo de orgulho e memória, transformando-o de estigma em emblema.
1987: SILENCE = DEATH
O coletivo ACT UP, em Nova Iorque, adota um triângulo rosa vibrante e invertido como a sua arma na luta contra a crise do VIH/SIDA.
1994: Revogação Total
O Parágrafo 175 é finalmente e completamente abolido do código penal alemão, quase 50 anos após o fim da guerra.
2008: Memória Oficial
É inaugurado em Berlim o Memorial aos Homossexuais Perseguidos pelo Nazismo, solidificando o seu lugar na história oficial.

É crucial reconhecer que, pela sua génese histórica, o triângulo está indelevelmente ligado à perseguição de homens e que a sua reapropriação inicial foi protagonizada, maioritariamente, por homens gays cis, brancos, no eixo transatlântico Europa—EUA. Esta associação levou a críticas válidas sobre a sua capacidade de representar toda a diversidade da comunidade. No entanto, é precisamente aqui que se pode permitir que a sua força simbólica se expanda. A perseguição nazi, embora codificada contra homens, visava a erradicação de toda a sexualidade não-normativa. Mulheres lésbicas, pessoas trans e outros desviantes da norma eram perseguidos sob outras categorias, como a de "associal", marcada pelo triângulo preto, ou desvalorizadas até ao apagamento total. Ao adotar o triângulo cor-de-rosa, a comunidade queer, no seu todo, executa um ato de solidariedade trans-histórica. Reivindica-se não a especificidade da perseguição, mas como um exemplo visível da universalidade da opressão contra a "queerness" — um termo propositadamente lato que nos permite usar categorias identitárias com a devida caução histórica e abraçar todas as expressões que desafiaram e desafiam a norma.
"Lésbicas "arianas" podiam ser usadas como reprodutoras independentemente dos seus próprios sentimentos, e a reprodução era o objetivo mais urgente da política populacional nazi."
— Heinz Heger e David Fernbach, 1994, p. 11

A multiplicidade de vivências que cabem dentro do termo queer leva-nos a uma dicotomia importante. A experiência queer é simultaneamente local e universal. Existe uma identificação comum entre pessoas queer, resultado das suas negociações com a opressão.
No entanto, cada indivíduo queer não partilha, à partida, mais do que isso: nem cor, nem sangue, nem religião, nem país, nem classe. É portanto possível, se não expectável, que a apropriação de um símbolo de uso tão localizado como o Triângulo Cor-de-Rosa tenha tendências universalistas ao ser ressignificado.
Nasceu de um trauma profundamente europeu e localizado — a Alemanha nazi. No entanto, através das redes de ativismo transatlânticas do pós-guerra, esta história regional foi exportada, traduzida e adotada por uma comunidade queer emergente, particularmente nos Estados Unidos, que procurava encontrar um passado onde ancorar as suas lutas por direitos civis. Ao fazê-lo, a comunidade transformou uma memória específica num emblema universal de opressão e resistência.
No entanto, é preciso assumir que este processo de universalização não é neutro. Corre-se o risco de projetar um modelo euro-americano de identidade e ativismo queer como sendo a norma global, colonizadora, ofuscando outras histórias e símbolos de resistência, sendo fundamental uma negociação constante de privilégio. O poder do triângulo reside, precisamente, nesta sua capacidade contraditória: ser simultaneamente um testemunho de uma atrocidade histórica particular e um ponto de encontro para uma empatia global, ainda que tenha de ser constantemente negociada e criticada.
Perante o traumático afastamento dos veículos tradicionais de transmissão de afeto e familiaridade, onde encontra uma comunidade a sua ancestralidade? É aqui que a história se torna refúgio e o conceito de
A História do ACT UP
Um documentário sobre o coletivo que mudou o rumo da crise da SIDA.
Esta herança simbólica seria novamente transformada, atingindo um novo e visceral patamar de visibilidade durante a crise do VIH/SIDA nos anos 80. Perante uma epidemia que dizimava a comunidade e a indiferença de governos como o de Ronald Reagan, o coletivo ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power) encontrou no triângulo a sua arma. Inverteram-no, apontando-o para cima, e combinaram-no com o lema inequívoco 'SILENCE = DEATH'. A inversão era um ato de empoderamento e de apropriação. A mensagem era um murro na mesa, acusando o silêncio dos Estados de ser cúmplice num genocídio e traçando uma linha direta entre a sua indiferença perante a pandemia e as atrocidades do passado. Reconhecendo tanto o papel positivo com as críticas que lhe são feitas, de moralismo, racismo, misogínia e transfobia, o que o ACT UP compreendeu, e que permanece uma lição central, é que para uma comunidade historicamente condenada ao silêncio, a única arma contra a aniquilação é a recusa de se calar.
"SILENCE = DEATH"
— ACT UP

O ensinamento do Triângulo Cor-de-Rosa nunca foi tão importante quanto hoje, a sumária fragilidade do progresso. Imediatamente antes dos Nacional-Socialistas, a República de Weimar (1918-1933), sobretudo em Berlim, viu florescer a primeira comunidade queer moderna e organizada, com uma cultura vibrante, investigação pioneira como a do Instituto para a Ciência Sexual de Magnus Hirschfeld e as primeiras defesas da transsexualidade.
Contudo, esta era de abertura foi brutalmente desmantelada em meros anos. Os livros foram queimados em praça pública, num auto de fé que visava purgar a sociedade de tais ignomínias. A comunidade foi empurrada de volta para o armário e os corpos foram sujeitos à escolha entre a castração, a prisão ou o negociar da morte, nos campos de concentração.
Esta memória histórica é um alerta permanente para o ressurgimento do extremismo de direita no eixo transatlântico, do racismo e da xenofobia; da transfobia e da homofobia; o Triângulo Cor-de-Rosa não nos deixa esquecer que a luta dos nossos antepassados nunca termina verdadeiramente e que cada direito adquirido não é uma conquista permanente, mas um terreno frágil que exige defesa incessante.

Queima de Livros na Alemanha Nazi, 1933

Membros do Partido Nazi na queima de livros em Opernplatz, Berlim (Wikimedia)
Triângulo de Amesterdão (1987)
O Homomonument em Amesterdão é um dos mais significativos. Composto por três triângulos rosa em granito, simboliza o passado, o presente e o futuro da luta LGBTQ+.
Anjo de Frankfurt (1994)
O 'Frankfurter Engel' foi um dos primeiros memoriais na Alemanha. A estátua de um anjo com as asas cortadas representa a violência sofrida.
Placa em Mauthausen (1995)
A primeira placa comemorativa oficial dentro de um antigo campo de concentração foi instalada em Mauthausen, na Áustria, após uma longa campanha de ativistas.
Parque do Triângulo Rosa (2001)
O primeiro memorial permanente nos EUA, em São Francisco, é composto por 15 colunas triangulares de granito. Cada uma representa os 1.000 gays, lésbicas, bissexuais e transgénero mortos no Holocausto.
Memorial de Sydney (2001)
Este memorial no Museu Judaico de Sydney apresenta um triângulo rosa e um triângulo preto entrelaçados, homenageando explicitamente as vítimas gays e lésbicas do regime nazi.
Memorial de Berlim (2008)
O Memorial aos Homossexuais Perseguidos pelo Nazismo, em Berlim, é um cubo de betão onde se pode espreitar para ver um vídeo de um beijo.
Memorial de Barcelona (2011)
Este memorial triangular recorda os gays, lésbicas e pessoas trans que sofreram perseguição e repressão ao longo da história, um lembrete da luta contínua por direitos.
Memorial de Tel Aviv (2014)
Este memorial é o primeiro em Israel a homenagear explicitamente todas as vítimas do nazismo — judeus e não-judeus — perseguidas pela sua orientação sexual ou identidade de género.
É importante ressalvar que a Berlim da República de Weimar, como detalhemos numa viagem posterior, está longe de ser a utopia queer que aparenta. Apesar de ser pioneiro nas suas concepções de identidade sexual e de género, as teorias de Magnus Hirschfeld carregam o peso da sua branquitude imperialista. Estas contradições são fundamentais para entendermos as dissonâncias dentro da comunidade queer, que atravessam culturas, religiões e tempo, para encontrar concílio no desejo e no amor.
O Triângulo Cor-de-Rosa permite observar o passado através dessa lente queer, assente no presente e com os olhos no futuro. A respetiva escolha como centro simbólico do Arqueeris — o arquivo vivo que se ramifica em projetos como Aquilo Atrás Daquilo e Vasco da Cama — é mais do que uma homenagem; é uma declaração de pertença. É a afirmação de que, apesar da nossa diversidade e dispersão, partilhamos uma história comum. O triângulo não representa apenas a violência a que fomos submetidos, mas também a nossa capacidade coletiva de transformar essa opressão em identidade e resistência — que alternativa temos? Não é apenas um símbolo que usamos; é uma linhagem que nos reivindica, um testemunho de que, mesmo na mais profunda escuridão, nunca fomos, nem seremos, os únicos, na senda da pertença. A escolha do triângulo é um ato de arquivar uma memória que de outro modo seria perdida ou negada, transformando o trauma num arquivo afectivo acessível a todos os que se sentem parte desta linhagem.
Figuras Chave
Médico e sexólogo pioneiro, fundou o Instituto para a Ciência Sexual em Berlim, um dos primeiros centros dedicados ao estudo e defesa da diversidade sexual e de género. O seu trabalho foi destruído pelos nazis.
Dançarina, atriz e ícone da vida noturna de Weimar. A sua expressão artística andrógina e a sua vida abertamente bissexual desafiaram todas as convenções sociais da época, tornando-a um símbolo da liberdade radical que o nazismo viria a esmagar.
Sobrevivente austríaco do Holocausto. O seu testemunho, publicado sob o pseudónimo Heinz Heger, "The Men with the Pink Triangle", foi um dos primeiros e mais influentes relatos sobre a perseguição de homossexuais nos campos de concentração.